quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Desafios das lideranças comunitárias para a gestão participativa

Fernando Pessoa certa vez escreveu: “Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de porque se haviam zangado. Cada um contou as suas razões. Ambos tinham razão. Não era que um via uma coisa e outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão. Fiquei confuso desta dupla existência da verdade”.

Fico imaginando o que o inquieto poeta português diria sobre Gestão Participativa. Provavelmente, ele trocaria a palavra dupla por múltipla, pois quando temas importantes para um grupo ou comunidade são discutidos, as visões sobre a verdade são tantas que, muitas vezes, a essência das questões se perde em meio às discussões.

Vivemos numa época em que a expressão Gestão Participativa vem sendo utilizada largamente, porém o que na prática é refletido? O que nos resultados se percebe? Como as pessoas se sentem e se posicionam? Como as lideranças podem se certificar de que todas as vozes foram ouvidas e consideradas? Como quem conduz o processo garante imparcialidade?

Quando decisões são tomadas sem que, corajosamente, se aprofunde a discussão em busca da essência, o resultado mais comum é que as escolhas feitas não contemplem todas as “verdades” e anseios. E, assim, nascem subgrupos que aparentemente aceitam as diretrizes, mas que efetivamente trabalham em prol de seus interesses e crenças.

Adam Kahane, em seu livro Poder e Amor, fala sobre as duas posturas habitualmente adotadas frente a desafios sociais complexos: agressividade ou submissão.

Quando falamos de subgrupos, é possível perceber claramente essas duas forças: uma que busca o embate, ter razão a qualquer custo, e a outra procura colocar panos quentes, não brigar.

O grande desafio do líder é considerar que haverá interesses vários, indivíduos e grupos com tendências mais frias ou quentes, mais ativos ou mais passivos e persistir na busca da essência das questões e para isso é preciso repensar a forma como as decisões são tomadas.

Muitas vezes, a ansiedade em resolver faz com que processos decisórios sejam conduzidos sem que se considerem a história, as reais necessidades e capacidades dos envolvidos, os impactos e conseqüências a curto, médio e longo prazos. Além disso, perde-se a sensibilidade para identificar como as pessoas estão se sentindo no processo e quais são as “panelinhas” que poderão se formar para fazer valer seus interesses particulares. E pior que isso é o próprio líder participar de um desses subgrupos. O que sabemos, acontece frequentemente.

Para o líder é necessária uma mudança de paradigma, acalmar os ânimos e criar espaços abertos para que “todas as verdades” sejam consideradas. O primeiro passo é trabalhar internamente para reter o julgamento, aceitar os próprios sentimentos de simpatia e antipatia, mas não deixar se guiar por eles e sim pelos fatos, dados, informações.

A liderança que não faz esse lapidar interno será incapaz de ouvir genuinamente os demais envolvidos e, sobretudo, ajudá-los e inspirá-los na árdua tarefa de se ater aos fatos e não às sensações, aos medos, às crenças, aos desejos.

Dado o primeiro passo, o do lapidar-se, o líder terá como desafio transformar-se num facilitador, deixando a figura do condutor de lado. Como facilitador, uma de suas principais tarefas será de ajudar o grupo a ampliar sua visão sobre a questão e neste momento existe uma grande quebra de paradigma, pois não são respostas que ele dará mas, sim, fará perguntas, aprofundará questionamentos, buscará informações ouvindo cada integrante, fomentando a participação ativa de todos.

Quando o líder atua como facilitador, cada participante tem a possibilidade de se empoderar, de ser mais criativo e contributivo.

Aquele que lidera um processo decisório precisa ter consciência de que sucesso do resultado final, da implementação é tão importante quanto desenvolvimento do grupo, pois só se tem a verdadeira gestão participativa se a decisão tomada coletivamente é levada à pratica coletivamente e cooperativamente.


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