E lá em cima, o pequeno avião segue e a paisagem pouco muda. Nos primeiros momentos do vôo vê-se elevações que exibem suas veias e pouco depois começa um plano que os olhos não conseguem ver o fim. Vez ou outra surgem, majestosas, as copas de ipês carregados de amarelo vivo. Alguns juntinhos parecem famílias unidas enfrentando o sol ardente e a secura, outros já se mostram aventureiros e ocupam sozinhos vasta área.
Vejo, também, pasto onde era mata, quilômetros de asfalto que cortam regiões, à primeira vista, desabitadas. Nessas estradas margeadas pelo pouco que resta de verde nativo, por muito tempo não avisto nenhum carro, caminhão ou ônibus. Pergunto-me, então, porque são construídas essas rodovias se parecem ser sub-utilizadas? Meu julgamento rápido dá a pista de que poucos devem ter ganhado muito com a obra. Aliás, outra pergunta me ocorre, é como seriam utilizados os tantos rios que serpenteiam essas terras.
Depois de algum tempo, o que se vê do alto vai mudando. Plantações em formato circular vão aparecendo aqui e ali e inúmeras estradinhas marcam a terra como se fossem rugas de uma pele curtida ao sol. Procuro habitações e são raras as que encontro. São distâncias imensas que separam cada construção. Outro questionamento me absorve: como será viver assim tão isolado? Para uma paulistana, acostumada à proximidade das edificações chega a dar arrepios imaginar-me vivendo no que parece ser o meio do nada. E isso me faz lembrar que mesmo “colada” ao meu vizinho, pouco ou nada sei sobre ele. Outras distâncias.
Quanto mais se aproximam as cidades, mais vejo terra rasgada seja pela seca, seja pelo humano que cria seus caminhos em direção aos amontoados urbanos que crescem aos olhos enquanto o avião começa a descida.
Mais próxima do solo, vejo com mais clareza o quanto a natureza é resistente e persistente. São olhos d'água que perdem seus cílios, mas não a majestade dos ipês que as margeiam. É tanta beleza e fluidez que me custa acreditar que o ser humano não consiga viver em completa harmonia com o que o planeta naturalmente dá.
Eu busco em meu coração as razões para continuar acreditando que a mão destrutiva do homem caminha para ser tão efêmera quanto a florada dos ipês.Em algum ponto entre Gurupi e São Felix do Araguaia

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