Sobrevoando a Ilha do Bananal olho para trás e me despeço de São Felix do Araguaia. O pequeno avião chacoalha no céu envolvido pela fumaça das queimadas. Do alto vejo as lindas praias que se formam em época de seca. O espetáculo é bonito, mas é resultado, também, do assoreamento do Rio Araguaia, provocado por décadas de desmatamento da mata ciliar.Dias antes desse sobrevôo estive em Porto Alegre do Norte para a condução do modulo 3do Programa Germinar. Foi uma experiência e tanto falar sobre mediação de conflitos para pessoas que diariamente os tem na pauta. São contendas de toda ordem: sem terra que invadem latifúndios, ministério público que flagra trabalho escravo em fazendas e empresas, brigas de bar, policiais que atiram primeiro e perguntam depois, padres que acreditam que os mártires são necessários. Tudo parece muito frágil.
Tiago Sartori, meu fidelíssimo companheiro de aventuras mato-grossenses, e eu, depois de concluído o modulo, seguimos para São Felix do Araguaia, onde completamos nossa intensa semana de trabalho. A viagem foi um rali. Foi a primeira vez que dirigi tantos quilômetros – cerca de 200 – em estrada de terra. Bela experiência.
No caminho, além da poeira típica da época de seca, animais passeiam pela estrada: tatus, saracuras e bois, ou melhor, boiadas. Em certa passagem eram tantos que temi não conseguir passar por aquele trecho, mas eis que surge a figura mítica do peão de boiadeiro. E eu que imaginava que esse profissional do campo surgisse numa bela montaria, surpreendi-me quando ele passa afugentando os bois montado numa motocicleta. É os tempos são outros.
No meio do caminho passamos por uma cidadezinha que está fincada no meio da terra indígena Marãwatsede. Os índios foram expulsos da área em 1966 quando ocorreu a ocupação da área pelos fundadores da Fazenda Suiá-Missu, à época o maior latifúndio do Brasil. Em 1992, a por conta de um acordo firmado na Eco-92, foi anunciada a devolução da terra aos índios. A demarcação da terra foi concluída pela Funai em 1993, mas somente em 2004 um grupo de índios Xavante retornou à Marãwatsede.
É uma das tensas áreas da região, pois mesmo após o reconhecimento oficial pelo Estado brasileiro de que o território é indígena, fazendeiros e políticos da região incentivam a invasão da terra por posseiros.
E um dos poucos pontos de parada para alongar o corpo que vibra com tanto solavanco. Andar por ali dá a sensação de estar participando de algum daqueles antigos filmes de bang-bang.
Seguindo a viagem, saímos da BR 158 – aquela cujo asfalto só existe nos mapas do governo e pegamos a BR 242, também de terra vermelha. Mais duas horas de chão e São Felix se apresenta.
Ao chegar à cidade, fomos para a simples pousadinha que nos abrigaria nos próximos três dias. Tudo o que queria era um banho e cuidar da minha abstinência de internet. E isso foi feito já que a pousada, apesar de modesta, tinha chuveiro quente e WiFi.
No dia seguinte acordei às 5 horas e aproveitei para ver o sol nascer do outro lado do Rio Araguaia. Belo espetáculo, pena que o céu, no decorrer do dia ficou tingido pela fumaça das queimadas, que soube mais tarde, são provocadas pelos índios, numa pratica ancestral. E eu que pensava que os índios cuidavam bem da terra.
À noite, quando jantava num restaurante flutuante atracado à margem do rio, dava para ver os clarões amarelados na Ilha do Bananal. Não bastasse esse triste espetáculo, soube que as águas do Araguaia recebem litros e litros de óleo sendo despejados diariamente pelo restaurante. E ninguém faz nada a respeito.
Mas, nem tudo é desalentador. A natureza é forte e lutadora, pois mesmo nesse ambiente maltratado foi possível ver botos nadando felizes.
Esse Mato Grosso é cheio de surpresas.
04 de julho de 2010
04 de julho de 2010
Sandra gostei muito do blog. Gostaria de lhe pedir permissão para reproduzir o texto acima nos meus blog, achei bem relevante e "revelante" a historia dos indios. Creio que seria bom que mais pessoas soubessem. Abs. Elaine. se Deus quiser, te vejo em agosto. Vou me esforçar para finalizar o 3mod.
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